A Amoris laetitia… “em pequenas doses”
Num maravilhoso entrelaçamento, 2021 vê coexistir o Ano de São José e o Ano da Família (inaugurado pelo Papa Francisco a 19 de março de 2021).
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Este ano nasce para colocar a família no centro e refletir sobre a sua importância. Com efeito, intitula-se precisamente “Família Amoris Laetitia”, porque o compromisso a que o Papa chama todos, isto é, serem testemunhas do amor familiar, segue precisamente o fio dos temas abordados pela exortação pós-sinodal Amoris Laetitia, que propunha uma releitura do papel da família à luz do Evangelho e em conformidade com a sociedade atual.

Propomos uma síntese deste importante documento, dividido em 9 capítulos e mais de 300 parágrafos. Nos parágrafos introdutórios, o Papa afirma desde logo e com clareza que é preciso sair da estéril contraposição entre a ansiedade de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates que se encontram nos meios de comunicação ou nas publicações e até entre os ministros da Igreja vão desde um desejo desenfreado de mudar tudo sem reflexão ou fundamento suficientes até à atitude que pretende resolver tudo aplicando normas gerais ou tirando conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas» (Amoris Laetitia [= AL] 2).
Primeiro capítulo: “À luz da Palavra”
O Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras: a Bíblia «é povoada por famílias, por gerações, por histórias de amor e de crises familiares» (AL 8) e, a partir deste dado, pode meditar-se sobre como a família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que também se confrontou com o pecado desde o início (cf. AL 19). Assim, a Palavra de Deus «não se mostra como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem também para as famílias que estão em crise ou atravessam algum sofrimento, e indica-lhes a meta do caminho» (AL 22).
Segundo capítulo: “A realidade e os desafios das famílias”
O Papa considera a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes na terra» (AL 6), recorrendo amplamente aos Relatórios finais dos dois Sínodos e enfrentando numerosos desafios, desde o fenómeno migratório à negação ideológica da diferença sexual (“ideologia do género”); da cultura do provisório à mentalidade antinatalista e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência contra as mulheres. O Papa insiste na concretude, que é uma característica fundamental da Exortação: são a concretude e o realismo que estabelecem uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e «ideologias». Sem escutar a realidade, não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito.
Terceiro capítulo: “O olhar dirigido a Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja sobre o matrimónio e a família. A presença deste capítulo é importante porque ilustra de forma sintética a vocação para a família segundo o Evangelho, tal como foi acolhida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo no que diz respeito à indissolubilidade, à sacramentalidade do matrimónio, à transmissão da vida e à educação dos filhos.
Quarto capítulo: “O amor no matrimónio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimónio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo em 1 Cor 13, 4-7. O capítulo termina com uma reflexão muito importante sobre a «transformação do amor», porque «o prolongamento da vida faz com que aconteça algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a pertença recíproca devem conservar-se durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto implica a necessidade de voltar a escolher-se várias vezes» (AL 163).

Quinto capítulo: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se inteiramente na fecundidade e na generatividade do amor. Fala-se de forma espiritualmente e psicologicamente profunda sobre o acolhimento de uma nova vida, a espera própria da gravidez, o amor da mãe e do pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção (para aprofundar: Orações para quem não consegue ter filhos), do acolhimento do contributo das famílias para promover uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos.

Sexto capítulo: “Algumas perspetivas pastorais”
No sexto capítulo , o Papa aborda alguns caminhos pastorais que orientam a construção de famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus. O Papa aborda também o tema de orientar os noivos no caminho de preparação para o matrimónio, de acompanhar os esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia que é preciso saber escutar, apurando o ouvido do coração» (AL 232). Fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas.

Sétimo capítulo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é inteiramente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, de forma mais geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e, sobretudo, a atenção à gradualidade e aos pequenos passos «que possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Oitavo capítulo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O oitavo capítulo constitui um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem plenamente àquilo que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: “acompanhar, discernir e integrar”, que são fundamentais para enfrentar situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Assim, o Papa apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquilo a que chama a «lógica da misericórdia pastoral».
Contudo, o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com força: «Compreender as situações excecionais nunca implica esconder a luz do ideal mais pleno nem propor menos do que aquilo que Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos fracassos é o esforço pastoral para consolidar os matrimónios e assim prevenir as ruturas» (AL 307). Mas o sentido global do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja está bem resumido nas palavras finais: «Convido os fiéis que vivem situações complexas a aproximarem-se com confiança para um diálogo com os seus pastores ou com leigos que vivem dedicados ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das suas ideias e dos seus desejos, mas receberão certamente uma luz que lhes permitirá compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de maturação pessoal. E convido os pastores a escutar com afeto e serenidade, com o desejo6sincero de entrar no coração do drama das pessoas e de compreender o seu ponto de vista, para as ajudar a viver melhor e a reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312).

Nono capítulo: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Afirma-se claramente que «aqueles que têm profundos desejos espirituais não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas que é um caminho que o Senhor utiliza para os levar aos cumes da união mística» (AL 316). Tudo, «os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e também a sexualidade, são vividos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição» (AL 317). Fala-se, portanto, da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre no desafio e no desejo de envelhecer e se consumir juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, da espiritualidade «do cuidado, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da família é um “pasto” misericordioso. Cada um, com cuidado, pinta e escreve na vida do outro» (AL 322), escreve o Papa.
