Textos retirados do Missalinho «Sobre a Tua Palavra» setembro-outubro de 2024
28.º domingo do Tempo Comum (B)
4.ª sem. salt.
PRIMEIRA LEITURA
Do livro da Sabedoria (Sab 7,7-11)
Rezei e foi-me concedida a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a a cetros e tronos; considerei a riqueza como nada, em comparação com ela; nem sequer a comparei a uma pedra preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, é apenas um pouco de areia, e a prata será avaliada como lama diante dela. Amei-a mais do que a saúde e a beleza, preferi tê-la à luz, porque o esplendor que dela vem não se extingue. Com ela vieram-me todos os bens e, pelas suas mãos, uma riqueza incalculável. – Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
Ter prudência e sabedoria vale mais do que todas as riquezas do mundo, diz-nos a primeira leitura. Contudo, é preciso compreender de que sabedoria se trata, porque uma coisa é a sabedoria de Deus e outra é a do mundo. Conhecer as coisas segundo Deus significa interpretar as situações da vida e do mundo à luz da fé. A fé nunca é contrária à razão; pelo contrário, ilumina-a e orienta-a. Quem tem muita fé vive-a, pratica-a e exerce-a em todas as ocasiões: desde a maneira de se vestir à forma de cozinhar, desde o modo como fala com o vizinho até às grandes escolhas da vida moral. Quem tem fé vê tudo segundo Deus e põe cada coisa no seu lugar, embora, naturalmente, o mundo, que se opõe a Deus e à Igreja, diga precisamente o contrário. Lemos, além disso, que todas as riquezas de ouro e prata nada valem perante esta inteligência cristã. Os homens de hoje não estariam de acordo; diriam que é melhor ser muito rico do que ter sabedoria. Mas as contas fazem-se no fim da vida: a riqueza segundo o mundo não salva a alma; a vida de fé, sim.
SEGUNDA LEITURA
Da Carta aos Hebreus (Heb 4,12-13)
A palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até ao ponto de divisão da alma e do espírito, até às articulações e à medula, e discerne os sentimentos e os pensamentos do coração. Não há criatura que possa esconder-se diante de Deus; tudo está nu e patente aos olhos d’Aquele a quem devemos prestar contas. – Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
Por que razão é tão poderosa a palavra de Deus? Porque a palavra de Deus é o próprio Deus. Como entra o Senhor em ti e vive no teu coração? Através das palavras que pronuncia e que tu escutas na Sagrada Escritura, nas homilias, nos livros da Tradição, no Magistério autêntico da Igreja, na vida dos santos, etc. A Palavra entra em ti não para te informar ou te dar mais algum conhecimento, mas para te pôr em contacto com a própria presença de Deus, para te perturbar, te transformar e te fazer renascer no Espírito Santo. Não é por acaso que Jesus também é chamado «Verbo», termo que exprime uma ação, um movimento. Já no Antigo Testamento a palavra de Deus era chamada espada (no trecho de Isaías que lemos hoje, retomado na Carta aos Hebreus), e também martelo (Jer 23,29), coisas perigosas, que servem para cortar e quebrar. Deus entra em ti também agora, hoje, e a sua missão é fazer-Se escutar para criar em ti uma vida nova. Eis por que temos dois ouvidos e uma só boca: para escutarmos pelo menos o dobro do que falamos. Além disso, os ouvidos estão sempre abertos, enquanto a boca pode fechar-se à vontade.
EVANGELHO DO DIA
Evangelho segundo São Marcos (Mc 10,17-30)
Naquele tempo, quando Jesus ia a caminho, um homem correu ao seu encontro e, ajoelhando-se diante d’Ele, perguntou-Lhe: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?». Jesus disse-lhe: «Por que Me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus. Tu conheces os mandamentos: “Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe”». O homem respondeu: «Mestre, tudo isso tenho eu observado desde a juventude». Jesus olhou para ele com simpatia e disse-lhe: «Falta-te uma coisa: vai, vende o que tens e dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me». Ao ouvir tais palavras, ficou abatido e retirou-se pesaroso, porque era muito rico. Então Jesus, olhando à sua volta, disse aos discípulos: «Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!». Os discípulos ficaram admirados com estas palavras. Mas Jesus insistiu: «Meus filhos, como é difícil entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode então salvar-se?». Fitando neles os olhos, Jesus respondeu: «Aos homens é impossível, mas não a Deus, porque a Deus tudo é possível». Pedro começou a dizer-Lhe: «Vê como nós deixámos tudo para Te seguir». Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos, por minha causa e por causa do Evangelho, deixará de receber cem vezes mais, já neste tempo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, juntamente com perseguições, e, no mundo futuro, a vida eterna». – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
«Creio verdadeiramente que o mundo - escreve Georges Bernanos - será salvo pelos pobres. Esses pobres existem, mas conhecemo-los mal, porque também se conhecem mal uns aos outros. Não fizeram nenhum voto de pobreza: foi o bom Deus que lho fez, sem que eles o soubessem. Os pobres possuem o segredo da esperança». A pobreza e a riqueza não se medem, portanto, pelo dinheiro que possuis, mas por aquele em quem depositas a esperança. O verdadeiro pobre é aquele que luta para viver, pagar as contas, fazer as compras e, ao mesmo tempo, recorre continuamente ao Senhor, sabendo que Deus é Pai e cuida dos seus filhos. Rico é aquele que já tem tudo e não precisa de nada. No fim, os papéis inverter-se-ão, porque o pobre herdará o reino dos Céus (Mt 5,3), enquanto o rico acabará infeliz, cego e nu (Ap 3,17), e com muita dificuldade herdará o reino de Deus. Apressemo-nos, pois, a entrar no grupo das pessoas que exercem a esperança, pedem humildemente a Deus que as enriqueça com a sua graça, se contentam com aquilo que têm e desejam ardentemente a salvação eterna para si e para todos. «Esse pobre - conclui Bernanos com uma expressão poética - come todos os dias da mão de Deus».


