4.º domingo da Quaresma (B) “Laetare”
4.ª sem. salt.
Textos retirados do Missalinho “Sobre a Tua Palavra” março-abril de 2021
Neste domingo da alegria, Jesus, ao falar com Nicodemos, revela-nos o amor infinito que Deus tem por nós: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho unigénito». Esta é a boa notícia que devemos repetir a nós próprios ao despertar, perante cada dificuldade, cada desânimo, cada dúvida. Não somos cristãos porque amamos Deus. Somos cristãos porque acreditamos que Deus nos ama. O núcleo incandescente do Evangelho é a beleza do amor de Deus que Jesus mostrou, viveu e ofereceu.
PRIMEIRA LEITURA
Do segundo livro das Crónicas (2Cr 36,14-16.19-23)
Naqueles dias, todos os chefes de Judá, os sacerdotes e o povo multiplicaram as suas infidelidades, imitando em tudo as abominações dos outros povos, e profanaram o templo que o Senhor tinha consagrado em Jerusalém. O Senhor, Deus dos seus pais, enviava-lhes solícita e incessantemente os seus mensageiros para os advertir, porque tinha compaixão do seu povo e da sua morada. Mas eles troçaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as suas palavras e escarneceram dos seus profetas, a tal ponto que a ira do Senhor contra o seu povo atingiu o auge, sem remédio. Então [os seus inimigos] incendiaram o templo do Senhor, demoliram as muralhas de Jerusalém e lançaram fogo a todos os seus palácios, destruindo todos os seus objetos preciosos. O rei [dos Caldeus] deportou para a Babilónia os sobreviventes da espada, que se tornaram escravos seus e dos seus filhos até ao advento do reino persa, cumprindo-se assim a palavra do Senhor pela boca de Jeremias: «Enquanto a terra não tiver compensado os seus sábados, repousará durante todo o tempo da desolação, até se cumprirem setenta anos». No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor suscitou o espírito de Ciro, rei da Pérsia, que mandou proclamar em todo o seu reino, também por escrito: «Assim fala Ciro, rei da Pérsia: “O Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra. Ele encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está em Judá. Quem de entre vós pertence ao seu povo, que o Senhor, seu Deus, esteja com ele e suba!”». – Palavra de Deus.
Comentário à primeira leitura
«O Senhor, Deus dos seus pais, enviava-lhes solícita e incessantemente os seus mensageiros para os advertir, porque tinha compaixão do seu povo e da sua morada»: Deus nunca deixa de advertir solícita e incessantemente os seus filhos, para que se arrependam das suas más ações e se convertam, voltem atrás e se salvem. Deus deixa-nos livres para escolher, mas, tal como uma mãe que vigia os seus pequenos para os proteger de qualquer perigo, também Deus faz tudo para sugerir e suscitar a vontade de regressar a casa, onde nos espera sempre que nos vê vaguear para longe, em direção a destinos perigosos. Tem compaixão de cada um de nós, mesmo quando nos encontramos no abismo mais profundo das nossas quedas e desaparece toda a esperança humana; está sempre pronto a estender-nos a mão para nos levantar; nunca nos condena, seremos apenas nós próprios a fazê-lo se lhe virarmos as costas, recusando a sua ajuda e o seu amor. Agarremo-nos, então, à sua mão e deixemo-nos levantar e guiar com atenção. Estejamos sempre atentos para acolher as suas inspirações.
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo Apóstolo aos Efésios (Ef 2,4-10)
Irmãos, Deus, rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por causa das nossas faltas, restituiu-nos à vida com Cristo: é pela graça que fostes salvos. Com Ele também nos ressuscitou e nos fez sentar nos Céus, em Cristo Jesus, para mostrar nos tempos futuros a extraordinária riqueza da sua graça, pela sua bondade para connosco, em Cristo Jesus. Com efeito, é pela graça que fostes salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; nem vem das obras, para que ninguém se glorie. Nós somos obra sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus de antemão preparou, para que nelas caminhássemos. – Palavra de Deus.
Comentário à segunda leitura
«Pelo grande amor com que nos amou, estando nós mortos por causa das nossas faltas, restituiu-nos à vida com Cristo». Há muitos anos, os detergentes não existiam; as avós usavam água quente e cinza da lenha para lavar a roupa, e assim até o pano mais negro saía limpo e imaculado. Podemos usar este antigo costume de forma metafórica: Cristo vem tirar-nos das cinzas das nossas derrotas e quedas, que muitas vezes também nos roubam a alegria de viver. Temos a oportunidade de nos deixarmos lavar pela sua graça, em virtude do seu amor, e recuperar a vida, tal como a roupa das avós. Salvos não pelo que fazemos, mas pelo seu imenso amor inesgotável. Cada caminho está pontilhado de muitas subidas íngremes e acidentadas, e as quedas são inevitáveis, como a sujidade, mas Cristo conhece bem a nossa natureza e não nos deixa sem remédio para as nossas quedas. Que lugar ocupa o sacramento da Reconciliação na minha vida? É uma etapa frequente no meu caminho de fé? Sinto-me um filho amado? Rendo-me aos meus sentimentos volúveis, confessando-me apenas “quando me apetece”, ou encontro a coragem de escolher momentos específicos para viver o sacramento do Perdão?
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São João (Jo 3,14-21)
Naquele tempo, Jesus disse a Nicodemos: «Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, para que todo o homem que acredita n’Ele tenha a vida eterna. Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado; mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigénito de Deus. E o julgamento é este: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste claramente que as suas obras são feitas em Deus». – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
«O Filho do homem será elevado, para que todo o homem que acredita n’Ele tenha a vida eterna». Na cruz realizou-se a plenitude do amor de Cristo por cada ser humano. Olhar, ou melhor, acolher, este imenso dom significa ter a vida salva, não apenas esta vida terrena, mas também a eterna. Acolhê-lo significa deixar-se amar, permitir-lhe devolver a vida ao melhor que há em nós: a sua semelhança, marca indelével que nos distingue. Somos capazes de amar porque somos amados, e esta é a nossa verdadeira riqueza. Não a troquemos por nada. Todo o ser humano é chamado a ser feliz, a viver plenamente, se assim o quiser. É, portanto, fundamental saber escolher por quem nos deixamos guiar: por Aquele que dá vida ou por quem ilude? Fazer algumas perguntas torna-se então essencial e ajuda a verificar o caminho iniciado, na certeza de que nunca estamos sós: Ele caminha sempre connosco. A elevação de Jesus não acontece segundo critérios humanos, mas consiste no abaixamento da lavagem dos pés e, sobretudo, na entrega da própria vida na cruz. É o caminho para a vida eterna, «servir é reinar», para Jesus e também para nós.

