Textos retirados do Missalinho «Sobre a Tua Palavra» novembro-dezembro de 2024
3.º domingo do Advento (C) – «Gaudete»
3.ª sem. salt.
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do profeta Sofonias (Sof 3,14-17)
Exulta, filha de Sião, grita de alegria, Israel, rejubila e aclama de todo o coração, filha de Jerusalém! O Senhor revogou a tua sentença, afastou o teu inimigo. O Rei de Israel é o Senhor no meio de ti, já não temerás qualquer desgraça. Naquele dia dir-se-á a Jerusalém: «Não temas, Sião, não desfaleçam as tuas mãos! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, como poderoso salvador. Ele exulta de alegria por tua causa, renova-te com o seu amor, exulta por ti, como num dia de festa». – Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
Imaginemos a alegria de Deus, descrita de modo tão vivo pelo profeta Sofonias. Deus faz festa porque vê a exultação de Israel, libertado do inimigo que o ameaçava. De certo modo, Deus «provoca» a sua própria alegria ao libertar os seus filhos dos perigos da guerra. O mesmo acontece connosco: por exemplo, um pai compra um belo presente para o seu filho, no caminho para casa antecipa o momento em que poderá entregá-lo e, imaginando a expressão maravilhada e sonhadora do rapaz, alegra-se interiormente, feliz apenas por fazer feliz o outro. Se isto é verdade para os homens, muito mais o é para Deus. Ele liberta o seu povo da invasão e exulta, diz o texto. Antes da solenidade do Natal, a Igreja pede-nos que paremos um momento para considerar a nossa libertação, não de um exército armado, mas do poder dos pecados e da morte eterna. Este domingo chama-se «Gaudete» por este motivo e alegramo-nos porque Deus se faz homem em Belém, oferecendo-nos a possibilidade de viver a sua vida, algo que, depois do pecado de Adão e Eva no Éden, estava vedado, perdido.
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo apóstolo aos Filipenses (Fil 4,4-7)
Irmãos, alegrai-vos sempre no Senhor, repito-vos: alegrai-vos. A vossa amabilidade seja conhecida por todos. O Senhor está próximo! Não vos angustieis por coisa alguma, mas, em todas as circunstâncias, apresentai a Deus os vossos pedidos, por meio de orações, súplicas e ações de graças. E a paz de Deus, que está acima de toda a inteligência, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus. – Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
É possível estar sempre alegre se há tantas desgraças, problemas, conflitos e dificuldades na minha vida? Se tenho desventuras continuamente, se nada me corre bem, como pode São Paulo exigir que eu esteja sempre alegre? Dom Abbondio dizia que uma pessoa não pode dar coragem a si própria, mas eu acrescentaria que também não pode inventar a alegria nem dá-la a si mesma. A resposta está no facto de a nossa alegria não provir de acontecimentos mais ou menos favoráveis da vida, mas vir do interior, daquilo que somos «por dentro». Se estamos na graça de Deus, acreditamos que Deus vive em nós e nos comunica a sua vida, a vida eterna, que é amor, luz e paz no Espírito Santo. Quem está muito próximo de Deus, mesmo estando no sofrimento, é feliz, porque possui em si a vida. Quem, pelo contrário, está sem Deus, afastado ou hostil a Ele, tem necessariamente de fazer depender a alegria humana de acontecimentos externos (que esteja bom tempo, que os negócios corram bem, que se tenha boa saúde, etc.). A diferença é enorme e, de facto, São Paulo diz: «Alegrai-vos no Senhor». E é a alegria cristã que conquista o mundo!
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São Lucas (Lc 3,10-18 )
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: «Que devemos fazer?». Ele respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma, e quem tem comida faça o mesmo». Vieram também alguns publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: «Mestre, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi fixado». Também alguns soldados o interrogavam: «E nós, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não maltrateis ninguém nem extorquais nada a ninguém; contentai-vos com o vosso soldo». Como o povo estivesse na expectativa e todos se perguntassem interiormente se João não seria o Cristo, João respondeu a todos: «Eu batizo-vos com água, mas vem aquele que é mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha num fogo que não se apaga». Com muitas outras exortações, João anunciava a Boa Nova ao povo. – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
As coisas mais simples de fazer acabam por ser as mais difíceis, porque nos pedem que vivamos a caridade fraterna e não que realizemos atos heroicos. Para se preparar para a chegada de Jesus, o Batista exorta os soldados a contentarem-se com o seu soldo e aqueles que têm bens em abundância a partilhá-los com quem não tem. Difícil? Não, mas o homem está inclinado ao egoísmo e, para encontrar Deus, tem de trabalhar sobre si próprio (isto é: converter-se). Se a condição exigida pelo Batista tivesse sido realizar algum ato extraordinário, talvez muitos o tivessem preferido, mas, por vezes, os feitos heroicos também podem alimentar o amor-próprio. Portanto, é a caridade simples, elementar, quotidiana, que abre a porta à vinda do Senhor Jesus. Deus é amor e compreende-se com amor. Deus é amor e encontra-se bem onde as pessoas se amam. Naturalmente, isto também se aplica a todos nós hoje. Se, ao sair da Santa Missa (este é apenas um dos muitos exemplos possíveis), me ocorrer que tenho bens em excesso e que um familiar meu, pelo contrário, se encontra necessitado, sentir-me-ei impelido a ajudá-lo. Isto custa-nos imenso, porque não o sentimos como um ato assim tão necessário. No entanto, é-o.

