Textos retirados do Missal “Sobre a Tua Palavra” março-abril 0000
2.º domingo da Quaresma (C)
2.ª sem. salt.
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do Génesis (Gen 15,5-12.17-18)
Naqueles dias, Deus conduziu Abrão para fora e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar»; e acrescentou: «Assim será a tua descendência». Ele acreditou no Senhor, que lho creditou como justiça. E disse-lhe: «Eu sou o Senhor, que te fez sair de Ur dos Caldeus para te dar em posse esta terra». Abrão respondeu: «Senhor Deus, como poderei saber que a hei de possuir?». Disse-lhe: «Toma uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombo». Abrão foi buscar todos estes animais, cortou-os ao meio e colocou cada metade em frente da outra; mas não cortou as aves. As aves de rapina desciam sobre os cadáveres, mas Abrão afugentava-as. Ao pôr do sol, um torpor caiu sobre Abrão e eis que o assaltaram o terror e uma grande escuridão. Quando o sol se pôs e a escuridão se adensou, eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram por entre os animais cortados. Naquele dia, o Senhor concluiu esta aliança com Abrão: «À tua descendência darei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio, o rio Eufrates». – Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
O texto do Génesis apresenta-nos Abraão, nosso pai na fé. Ele, diz o texto, «acreditou no Senhor, que lho creditou como justiça». Graças à fé de Abraão, ao seu «sim», Deus pôde realizar grandes coisas. Abraão confiou na promessa de Deus: terás uma descendência (v. 5), uma terra (v. 7), um povo (v. 18). Mas, para obter isto, passou pela dura provação do sacrifício do filho Isaac. Contudo, Abraão não cedeu, demonstrando que Deus era para ele “luz e salvação”, texto que a liturgia escolheu como salmo responsorial e que revela o coração de Abraão, nosso pai na fé: «O Senhor é a minha luz e a minha salvação: a quem hei de temer?… O meu coração repete o teu convite: «Procurai o meu rosto!». É o teu rosto, Senhor, que eu procuro… Espera no Senhor, sê forte, robusteça-se o teu coração e espera no Senhor». Esta é a atitude que nos é pedida no início do caminho quaresmal.
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo apóstolo aos Filipenses (Fil 3,17 – 4,1)
Irmãos, imitai-me todos juntos e observai aqueles que se comportam segundo o exemplo que tendes em nós. Porque muitos - já vo-lo disse várias vezes e agora, com lágrimas nos olhos, vo-lo repito - comportam-se como inimigos da cruz de Cristo. O seu destino final será a perdição, o ventre é o seu deus. Orgulham-se daquilo de que deveriam envergonhar-se e não pensam senão nas coisas da terra. A nossa cidadania está nos céus e de lá esperamos como salvador o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso pobre corpo, tornando-o conforme ao seu corpo glorioso, pelo poder que tem de sujeitar a si todas as coisas. Por isso, meus irmãos muito queridos e tão desejados, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor deste modo, caríssimos! - Palavra de Deus.
Comentário à segunda leitura
Paulo, neste texto, convida-nos a imitá-lo e, ao mesmo tempo, a olhar para aqueles que viveram uma vida bela diante de Deus; pensemos apenas em Abraão, nosso pai na fé: «Irmãos - escreve Paulo -, imitai-me e observai aqueles que se comportam segundo o exemplo que tendes em nós... A nossa cidadania está nos céus e de lá esperamos como salvador o Senhor Jesus Cristo... permanecei firmes no Senhor». Paulo coloca os seus ouvintes diante da meta que os espera, a vida transfigurada: haverá dificuldades a enfrentar, fidelidade a demonstrar, mas no fim tudo será recompensado em Cristo Jesus. A salvação, portanto, não é obra do homem, mas dom de Cristo e da sua cruz, que ainda é escândalo e loucura para muitos, mas, para quem crê, é garantia de salvação. Encorajados pelas palavras de Paulo, somos assim convidados a escutar a Palavra, a deixar-nos invadir interiormente por ela, para que se torne uma só coisa em nós: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2,20).
EVANGELHO
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 9,28b-36)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte para rezar. Enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto e a sua veste tornou-se branca e resplandecente. E eis que dois homens conversavam com Ele: eram Moisés e Elias, que apareceram na glória, e falavam da sua partida, que estava prestes a cumprir-se em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam oprimidos pelo sono; mas, quando acordaram, viram a sua glória e os dois homens que estavam com Ele. Enquanto estes se afastavam d’Ele, Pedro disse a Jesus: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas, uma para Ti, uma para Moisés e uma para Elias». Ele não sabia o que dizia. Enquanto falava assim, veio uma nuvem e cobriu-os com a sua sombra. Ao entrarem na nuvem, ficaram com medo. E da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o Eleito; escutai-O!». Assim que a voz cessou, Jesus ficou sozinho. Eles calaram-se e, naqueles dias, não contaram a ninguém o que tinham visto. -
Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho
Tentemos manter os textos em conjunto. Os da Quarta-feira de Cinzas recordaram-nos que somos frágeis e necessitados de conversão; os textos do domingo passado recordaram-nos que a vida - os quarenta dias da Quaresma são um símbolo da nossa vida em escala/em miniatura - é uma luta/combate contínuo que nos empenha na escolha entre Deus e as propostas do diabo. Hoje dão-nos a razão última pela qual vale a pena lutar, permanecendo fiéis ao Senhor: espera-nos uma vida transfigurada, de glória! A experiência da transfiguração é apenas um sinal: «Enquanto rezava, o seu rosto mudou de aspecto e a sua veste tornou-se branca e resplandecente… E da nuvem saiu uma voz, que dizia: “Este é o meu Filho, o Eleito; escutai-O!”». Em Lucas, a transfiguração é uma experiência de oração, diz-nos o texto: «Enquanto rezava». Ao folhearmos os Evangelhos, apercebemo-nos de que a oração introduz Jesus nas experiências mais importantes da sua vida: assim aconteceu com Ele, assim acontece também connosco. Que esta Quaresma nos ajude a reservar os tempos necessários de oração para nos deixarmos transfigurar pelo Senhor e enfrentarmos com fortaleza os momentos mais exigentes.
