Textos retirados do Messalino “Sobre a Tua Palavra” março-abril de 2024
5.º domingo da Quaresma (B)
1.ª sem. salt.
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do profeta Jeremias (Jer 31,31-34)
Eis que virão dias - oráculo do Senhor -, nos quais concluirei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não será como a aliança que concluí com os seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egito, aliança que eles quebraram, embora Eu fosse o seu Senhor. Oráculo do Senhor. Esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel, depois daqueles dias - oráculo do Senhor -: porei a minha lei no seu íntimo e escrevê-la-ei no seu coração. Então Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Já não terão de se instruir uns aos outros, dizendo: «Conhecei o Senhor», porque todos Me conhecerão, desde o mais pequeno ao maior - oráculo do Senhor -, pois perdoarei a sua iniquidade e não mais recordarei o seu pecado. - Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
A nova aliança escrita nos corações consiste no perdão dos pecados, diz-nos hoje o profeta Jeremias. Quando nos sentimos realmente e profundamente perdoados por Deus, cria-se em nós um sentido de comunhão, gratidão e reconhecimento, que nos liga a Ele de modo indelével. Os mandamentos da antiga aliança, escritos não nos corações, mas em tábuas de pedra, permanecem e não perderam a sua validade: são como sinais indicadores que nos orientam e nos fazem permanecer no caminho certo. Mas, por si só, não bastam, porque o homem, depois do pecado original, é rebelde e quer fazer tudo à sua maneira. É precisamente o perdão de Deus que nos faz conhecê-Lo e nos mostra o seu verdadeiro rosto. O nome de Deus é misericórdia e Ele deseja derramar o seu Espírito em nós, sempre tão fracos e frágeis. Infelizmente, fazemos a experiência do pecado e caímos muitas vezes, mas aquilo que nos é pedido é continuar a acreditar que somos amados, porque Deus não se lembra das nossas culpas se nos arrependermos sinceramente. «A verdadeira humildade - escreve Fabrice Hadjadj - não consiste em prostrar-se. Consiste em deixar-se levantar por Deus».
SEGUNDA LEITURA
Da Carta aos Hebreus (Heb 5,7-9)
Cristo, nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas, com fortes gritos e lágrimas, Àquele que O podia salvar da morte e, pela sua plena entrega a Ele, foi atendido. Embora fosse Filho, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-Se causa de salvação eterna para todos os que Lhe obedecem. - Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
O texto parece contraditório: diz-se que Jesus rezou intensamente ao Pai, que O podia salvar da morte, e que foi atendido. Sabemos, porém, que não foi atendido, porque Jesus morreu na cruz. Então? Evidentemente, aqui não se entende a morte biológica, a paragem do batimento cardíaco e a cessação da vida no corpo, mas a morte deve ser entendida como a rutura definitiva da comunhão com Deus. Jesus quis conhecer a morte biológica, que era consequência do pecado de Adão e Eva, precisamente para reparar essa rebelião e responder ao amor do Pai, dando de novo aos homens a possibilidade de serem filhos de Deus, em plena comunhão com Ele. Por esta obediência, por ter descido à grande escuridão do castigo causado pelo pecado, Jesus foi aperfeiçoado e tornou-Se causa de salvação eterna: porque, sendo Deus, colocou a luz onde havia trevas. A partir desse momento, quem morre em Cristo continua a viver com Ele, enquanto quem prefere a rebelião já escolheu suportar as suas consequências, aceitando permanecer para sempre no ódio e na escuridão. Deus respeita a nossa liberdade de escolha.
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São João (Jo 12,20-33)
Naquele tempo, entre os que tinham subido a Jerusalém para a adoração, durante a festa, havia também alguns gregos. Estes aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e fizeram-lhe este pedido: «Senhor, nós queremos ver Jesus». Filipe foi dizê-lo a André; e André e Filipe foram dizê-lo a Jesus. Jesus respondeu-lhes: «Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, siga-Me, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo. Se alguém Me servir, o Pai honrá-lo-á. Agora a minha alma está perturbada; e que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que Eu vim! Pai, glorifica o teu nome». Veio então uma voz do Céu: «Já O glorifiquei e glorificá-Lo-ei de novo!». A multidão que estava presente e tinha ouvido dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: «Foi um anjo que Lhe falou». Disse Jesus: «Esta voz não veio por causa de Mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo; é agora que o príncipe deste mundo será expulso. E Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a Mim». Dizia isto para indicar de que morte ia morrer. - Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
Jesus dirige-Se ao Pai e pede que o seu nome seja glorificado, como também nós fazemos sempre que rezamos o Pai-Nosso («santificado seja o vosso nome»). E de que modo Jesus dá glória ao Pai? Realizando o seu sacrifício na cruz. Mas como é possível que uma morte, tão infamante e terrível, dê glória a alguém? Não será antes a cruz algo a remover, a esquecer, de tão injusta e aterradora que nos parece? Se a contemplarmos com olhos humanos, é assim, mas em Deus a perspetiva é a do amor. Eis por que Jesus diz que também Ele próprio, o Filho, é glorificado no ato da morte. Tudo converge para esse dom total, absoluto e definitivo, que é a morte no amor. A partir desse momento, cada uma das nossas mortes para nós mesmos, no amor, cada ato em que preferimos o outro a nós mesmos, é participação nessa morte, é acontecimento de salvação eterna, é alegria divina. Não há amor maior do que este: dar-se e deixar de pensar em nós mesmos, sabendo que reencontraremos tudo no Céu. Morrer todos os dias para nós mesmos, dando amor, é a vida divina.

