3.º domingo do Tempo Pascal (B)
3.ª sem. salt.
Textos retirados do Missalinho «Sobre a Tua Palavra» março-abril de 2021
O tema comum às três leituras de hoje é o seguinte: Jesus, com a sua Páscoa, alcançou para todos os homens o perdão dos pecados. Para dele beneficiar, é preciso, antes de mais, tomar consciência do que é o pecado e reconhecer-se pecador. Os pecados erguem um muro entre nós e Deus, um muro que nós, depois de o erguer, não somos capazes de derrubar. Mas, com a sua morte e ressurreição, Jesus derrubou o muro, quebrou a corrente: assim, quem quiser pode obter o perdão e começar uma vida nova. O perdão, generosamente oferecido com o batismo e depois sempre renovado com a confissão, exprime o amor de Deus pelos seus filhos. Não deixemos que os nossos pecados nos condicionem, mas lancemo-nos para diante, renovados no alegre empenho de tender para Ele, o único capaz de preencher as expectativas mais profundas e autênticas do nosso coração.
PRIMEIRA LEITURA
Dos Atos dos Apóstolos (At 3,13-15.17-19)
Naqueles dias, Pedro disse ao povo: «O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob, o Deus dos nossos pais glorificou o seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes diante de Pilatos, quando ele tinha decidido libertá-lo; vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos fosse concedida a graça para um assassino. Matastes o autor da vida, mas Deus ressuscitou-O dos mortos: nós somos testemunhas disso. Agora, irmãos, eu sei que agistes por ignorância, como também os vossos chefes. Mas Deus cumpriu assim o que tinha anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de sofrer. Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam apagados».
Comentário à primeira leitura
«O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob, o Deus dos nossos pais»: esta insistência em afirmar Deus sempre presente na cronologia do Antigo Testamento leva a pensar que não há separação entre o antigo e o momento presente. O que une e dá sentido a toda a história é a certeza de que Deus está connosco, não conhece abandono nem inimizade. O próprio Jesus diz que Deus era, é e será. Se fala do «Deus dos vossos pais», significa que Ele está sempre presente, tal como no tempo de Abraão, de Isaac e de Jacob. Não é um deus de museu, já ultrapassado nos livros de história, mas um Deus vivo e atuante para além dos tempos, passado-presente-futuro. «Eu sou», diz Jesus, sou o eterno encarnado no tempo, sempre existi por amor, continuo a minha presença no hoje amando tudo e todos, sou o futuro de amor para cada criatura, sou a meta da vida terrena vivida por amor. Não sou o deus dos mortos, mas o Deus dos vivos, o Ressuscitado que venceu a morte, sou o Eterno: e é este o horizonte dentro do qual devemos viver a nossa existência. O único garante é Ele, o Deus dos nossos pais.
SEGUNDA LEITURA
Da primeira carta de São João Apóstolo (1Jo 2,1-5a)
Meus filhos, escrevo-vos estas coisas para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Paráclito junto do Pai: Jesus Cristo, o Justo. Ele é vítima de expiação pelos nossos pecados; não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. E sabemos que O conhecemos por isto: se observarmos os seus mandamentos. Quem diz: «Eu conheço-O» e não observa os seus mandamentos é mentiroso e a verdade não está nele. Mas quem observa a sua palavra, nesse o amor de Deus é verdadeiramente perfeito.
Comentário à segunda leitura
«Mas quem observa a sua palavra, nesse o amor de Deus é verdadeiramente perfeito»: no tempo pascal regressa constantemente o tema da palavra de Jesus, palavra do Pai confiada aos Apóstolos para ser anunciada nas comunidades. E também como catequese a pessoas concretas desejosas de conhecer o Jesus dos Evangelhos. É esplêndida a ideia de fazer girar toda a primeira parte da celebração eucarística em torno da Palavra, dividindo a Santa Missa em duas partes: liturgia da Palavra e liturgia Eucarística. E a Palavra exorta-nos, impele-nos a viver o único mandamento de Jesus, o do amor. Estabelece-se assim uma dependência entre a Palavra e o amor: do Pai para connosco, do Filho que aceita o projeto de amor do Pai para a humanidade, do Espírito Santo proveniente do amor do Pai e do Filho. A fé cristã identifica-se com a Sagrada Escritura e com o amor. Chega-se a afirmar que a Palavra observada por amor nos conduz à perfeição. Parece-me um exagero do amor de Deus por nós! Mas quem ama sabe sonhar com horizontes impensáveis e originais, porque brotam do amor.
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São Lucas (Lc 24,35-48)
Naquele tempo, [os dois discípulos que tinham regressado de Emaús] contaram [aos Onze e aos que estavam com eles] o que tinha acontecido pelo caminho e como tinham reconhecido [Jesus] ao partir do pão. Enquanto falavam disto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!». Espantados e cheios de medo, julgavam ver um fantasma. Mas Ele disse-lhes: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo! Tocai-Me e vede: um fantasma não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria, ainda não queriam acreditar e estavam admirados, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?». Deram-Lhe uma posta de peixe assado; e Ele tomou-a e comeu diante deles. Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: “Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”». Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso».
Comentário ao Evangelho do dia
«Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”»: Jesus nunca se cansa de estar com os seus discípulos depois da ressurreição; eles precisam de ser encorajados, de vencer o medo e a vergonha da fuga durante a paixão e a morte. Todo este esconder-se provoca confusão, agitação e medo de serem tratados como o Mestre. Eis então a encantadora saudação que Jesus lhes dirige: a paz esteja convosco. Passai do medo à serenidade, do esconder-vos a manifestar a vossa amizade com o Crucificado, do silêncio a proclamar com admiração que Ele é o Ressuscitado. Desperta, ó tu que dormes, Cristo, nossa Páscoa, ressuscitou, afastou todo o temor, vem trazer a paz onde havia medo, onde parecia reinar a morte. A paz de Cristo transforma toda a atitude fechada e receosa em estilos de vida alegres, abertos, como as situações do mundo onde a paz é necessária. E não uma paz vista superficialmente como ausência de guerra, mas lugar teológico da presença de Deus, da vitória do amor sobre o pecado, da serenidade sobre a arrogância, das relações serenas sobre a prepotência e a opressão. Paz que restitui sentido a cada pessoa que encontramos, digna da nossa saudação: SHALOM.

