Textos retirados do Missalinho «Sobre a Tua Palavra» setembro-outubro de 2021
30.º domingo do Tempo Comum (B)
2.ª sem. salt.
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do profeta Jeremias (Jr 31,7-9)
Assim diz o Senhor: «Entoai cânticos de alegria por Jacob, exultai pela primeira das nações, fazei ouvir os vossos louvores e dizei: “O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel”. Eis que os reconduzo da terra do norte e os reúno dos confins da terra; entre eles estão o cego e o coxo, a mulher grávida e a parturiente: voltarão para aqui em grande multidão. Partiram em lágrimas, mas Eu os farei voltar entre consolações; conduzi-los-ei a rios de água abundante, por um caminho direito em que não tropeçarão, porque Eu sou um pai para Israel e Efraim é o meu primogénito». Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
O povo de Israel encontra-se exilado na Babilónia; é um momento de desespero e tragédia. O Senhor não abandona os seus filhos e, por meio do profeta Jeremias, consola-os. São filhos sem esperança, mas ser-lhes-ão anunciadas a salvação e a libertação, porque «o Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel». Qual é o motivo desta escolha de Deus? Ei-lo: «Porque Eu sou um pai para Israel». É o seu amor paterno que orienta as escolhas de Deus; faz parte da sua natureza amar com um amor eterno, e cada crente é pessoalmente objeto desse amor. Isto recorda-nos que Deus não nos ama apenas quando nos cumula de graças. Quando a vida não nos sorri, quando tudo à nossa volta está escuro, quando nos sentimos áridos, quando os pensamentos negativos destroem a mente, quando perdemos o prazer da sua comunhão, Deus lembra-se constantemente de nós e não deixa de ter compaixão por nós. Deus não é como o nosso pai terreno, é um Pai totalmente e essencialmente diferente! É misericordioso e fiel, paciente, pronto a ajudar e a salvar, sempre.
SEGUNDA LEITURA
Da Epístola aos Hebreus (Heb 5,1-6)
Todo o sumo sacerdote é escolhido de entre os homens e constituído em favor dos homens nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Ele é capaz de se compadecer dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está revestido de fraqueza. Por causa dela, deve oferecer sacrifícios pelos pecados, tanto por si mesmo como pelo povo. Ninguém atribui a si próprio esta honra, senão aquele que é chamado por Deus, como Aarão. Assim também Cristo não Se atribuiu a Si mesmo a glória de sumo sacerdote, mas concedeu-lha Aquele que Lhe disse: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei», como também diz noutro lugar: «Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec». Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
Se o sumo sacerdote representa os homens diante de Deus, é evidente que deve ser um deles, escolhido para «oferecer» sacrifícios pelos pecados, para apresentar os homens a Deus e para os aproximar d’Ele. O sumo sacerdote distingue-se pela sua capacidade de sentir «compaixão» perante a ignorância e os erros dos homens. O motivo é claro: também ele experimenta a fraqueza e o sofrimento. Como poderia não ser indulgente para com aqueles com quem partilha a miséria? Cristo é o sumo sacerdote perfeito, e a sua compaixão por nós é um atributo essencial para quem procura n’Ele a salvação. Mas a compaixão é também «assunto nosso». Seguindo o exemplo de Jesus, também a nós é pedido que sejamos compassivos: nas nossas comunidades, nas nossas paróquias, nos nossos grupos de jovens, ao tentarmos compreender e apoiar o outro, na atenção aos mais frágeis, na ajuda aos pobres, em não excluirmos quem não faz parte do nosso círculo habitual. «Só o coração une e integra. A compreensão sem um sentir compassivo tende a dividir» (Papa Francisco).
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São Marcos (Mc 10,46-52)
Naquele tempo, quando Jesus saía de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, filho de Timeu, cego, estava sentado à beira do caminho a mendigar. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tende piedade de mim!». Muitos repreendiam-no para que se calasse, mas ele gritava ainda mais: «Filho de David, tende piedade de mim!». Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». Ele lançou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
Um pedido de ajuda: «Jesus, Filho de David, tende piedade de mim». Quantos escutariam o grito de um pobre cego, sentado à beira do caminho, que mendiga? Quantos preferem virar a cabeça para o outro lado para não ver? O pobre incomoda: incomoda a sua situação de indigência, incomoda o seu cheiro, incomodam os seus pobres trapos, incomoda o seu grito de ajuda; e então somos nós que nos tornamos cegos, surdos e mudos, pessoas de coração fechado que não sabem responder aos gritos de ajuda. Já nem as grandes tragédias humanas nos comovem, quanto mais o grito de um pobre. Mas quando o grito se torna mais forte: «Filho de David, tende piedade de mim», torna-se oração. E esta oração é acolhida por Jesus, que consegue escutar o coração das pessoas com o seu coração. «Chamai-o», diz Jesus. Com esta palavra, Jesus interpela cada um de nós: familiares, amigos, educadores, padres, freiras, para que também nós possamos parar, deixar-nos ver, aproximar-nos e dizer: «Coragem, levanta-te». Que a fé de Bartimeu seja a nossa fé; uma fé que nos faz olhar para tudo com olhos novos, olhos cheios de luz como os de Maria.

