Concluído o tempo pascal, retomámos o tempo comum.
Nos próximos domingos faremos algumas pausas significativas e a primeira de todas é a de hoje, em que celebramos a Santíssima Trindade. Deus é Trindade. Um só Deus em três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. Sobre a Trindade, o Evangelho não oferece fórmulas, mas o relato da última missão confiada aos apóstolos. Batizai todas as criaturas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A solenidade litúrgica da Trindade, «ao fazer-nos contemplar o mistério maravilhoso de que provimos e para o qual caminhamos, renova em nós a missão de viver a comunhão com Deus e de viver a comunhão entre nós segundo o modelo da comunhão divina. Somos chamados a viver não uns sem os outros, acima ou contra os outros, mas uns com os outros, pelos outros e nos outros» (Papa Francisco).
Santíssima Trindade (s) (B)
própria
Textos retirados do Missalinho “Sobre a Tua Palavra” maio-junho de 2021
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do Deuteronómio (Dt 4,32-34.39-40)
Moisés falou ao povo, dizendo: «Interroga os tempos antigos, que existiram antes de ti: desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra e de uma extremidade à outra dos céus, terá acontecido alguma coisa tão grande como esta e ter-se-á ouvido algo semelhante? Ouviu acaso algum povo a voz de Deus a falar do fogo, como a ouviste tu, e permaneceu vivo? Ou alguma vez algum deus tentou ir escolher para si uma nação no meio de outra, com provas, sinais, prodígios e batalhas, com mão poderosa e braço estendido e grandes terrores, como fez por vós o Senhor, vosso Deus, no Egito, diante dos vossos olhos? Reconhece, pois, hoje e medita no teu coração que o Senhor é Deus lá em cima nos céus e cá em baixo sobre a terra: não há outro. Observa, portanto, as suas leis e os seus mandamentos que hoje te dou, para que sejas feliz, tu e os teus filhos depois de ti, e para que permaneças por muito tempo na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para sempre». Palavra de Deus.
Comentário à primeira leitura
«Reconhece, pois, hoje e medita no teu coração que o Senhor é Deus lá em cima nos céus e cá em baixo sobre a terra: não há outro». Um único Deus a conhecer de modo experiencial e sobre o qual devemos meditar longamente. É precisamente a única divindade no céu e na terra, está entre as pessoas e as coisas com que nos relacionamos todos os dias e é também tudo aquilo que percebemos como superior a nós. Mas quantos foram os falsos ídolos do povo de Israel! Quais são os ídolos-fantoche da nossa época? Quantas vezes as pessoas se comportam como aparentemente superiores apenas porque são muito frágeis interiormente, profundamente inseguras e infelizes: então sentem a necessidade irresistível de subir ao pedestal do sucesso, da riqueza, das aparências, dos carros vistosos, da “coleção” de numerosas conquistas masculinas ou femininas das quais se gabam com os amigos… Olha e vê, pelo contrário, a serenidade, a luz dos olhos, o rosto descontraído de tantos jovens que escolheram a generosidade, a oração, a castidade; olha e vê a alegria profunda de pais e mães que se sacrificaram para estar verdadeiramente ao serviço: «Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21).
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo apóstolo aos Romanos (Rm 8,14-17)
Irmãos, todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. E vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas recebestes o Espírito que vos torna filhos adotivos, pelo qual clamamos: «Abá! Pai!». O próprio Espírito, unido ao nosso espírito, dá testemunho de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus, coerdeiros de Cristo, se verdadeiramente participarmos nos seus sofrimentos, para participarmos também na sua glória. Palavra de Deus.
Comentário à segunda leitura
«O próprio Espírito, unido ao nosso espírito, dá testemunho de que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, também somos herdeiros: herdeiros de Deus, coerdeiros de Cristo, se verdadeiramente participarmos nos seus sofrimentos, para participarmos também na sua glória». Nesta passagem da carta aos Romanos fala-se da Trindade inteira. É-nos dito de que modo o Pai, o Filho e o Espírito Santo agem em nós, seres humanos. Somos filhos, somos herdeiros com Cristo Senhor. Não basta dizê-lo com a voz; São Paulo é muito claro ao indicar-nos, antes de mais, a vida nos sofrimentos de Cristo, que nos leva a viver com ele a sua glória divina. Quantas vezes ouvi dizer, perante famílias desfeitas e os seus filhos: como poderão estas pobres criaturas invocar Deus como Pai, rezar o Pai-Nosso? Uma pergunta perfeitamente legítima, partindo de baixo. Mas a Sagrada Escritura ensina-nos a usar sempre um olhar que coloque Deus no centro, um olhar de fé. Nenhum amor de homem ou de mulher, nem mesmo de pai ou de mãe, será perfeito: a única forma de amar verdadeiramente não é recriminar, mas amar com o coração de Deus.
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São Mateus (Mt 28,16-20)
Naquele tempo, os onze discípulos foram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, prostraram-se. Alguns, porém, duvidaram. Jesus aproximou-se e disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei. E sabei que Eu estou convosco todos os dias, até ao fim dos tempos». Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
«Ide, pois, e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei». A Trindade de Deus é amor. Em si mesma e em cada relação com as suas criaturas. Mas, com Jesus Cristo, tudo chegou a uma plenitude tal que já não podemos viver, pensar e comportar-nos como antes. Éramos escravos do pecado, colocando - em defesa - a nós próprios no centro de cada relação. Assim, mesmo tentando elevar o olhar, encontrávamos apenas um ídolo-espelho das nossas feridas, medos e condicionamentos. Mas, uma vez que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, também a nossa natureza mais profunda é totalmente transformada por Ele: já não somos escravos, mas filhos, imersos na vida trinitária de Deus amor. Como quem recebeu um dom inestimável, corramos, pois, a dá-lo a conhecer a todos. Quem não é cristão é como se tivesse recebido um presente extraordinário, que lhe transforma a existência, mas não sabe como desembrulhar o invólucro em que está contido; ou então nem sequer tem consciência de ser filho do Deus Trindade-Amor, o mais belo que pode existir. A Igreja não pode, então, esquecer a missão e o testemunho explícito para dar a conhecer Deus-Trindade a todos.

