Textos retirados do Missalinho «Sobre a Tua Palavra» novembro-dezembro de 2023
Sagrada Família de Jesus, Maria e José (f) (B)
própria
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do Génesis (Gen 15,1-6;21,1-3)
Naqueles dias, foi dirigida a Abrão, numa visão, esta palavra do Senhor: «Não temas, Abrão. Eu sou o teu escudo; será muito grande a tua recompensa». Abrão respondeu: «Senhor Deus, que me dareis? Vou partir sem filhos e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco». E Abrão acrescentou: «Não me destes descendência e um criado da minha casa será o meu herdeiro». Mas o Senhor dirigiu-lhe esta palavra: «Não será esse o teu herdeiro; o teu herdeiro será alguém nascido de ti». Depois levou-o para fora e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz de as contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». Abrão acreditou no Senhor, que lho atribuiu como justiça. O Senhor visitou Sara, como tinha dito, e fez por ela como prometera. Sara concebeu e deu um filho a Abraão na sua velhice, no tempo que Deus tinha determinado. Abraão deu o nome de Isaac ao filho que lhe nascera e que Sara lhe dera. – Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
Abraão tem cem anos, a idade em que um homem mal consegue manter-se de pé e tem dificuldade em fazer tudo. A sua mulher, com noventa anos, não está melhor do que ele. E, no entanto, Deus tinha-lhe anunciado que teria uma grande descendência, mas essas palavras já passaram, porque aos noventa anos uma mulher já não pode engravidar. Então Abraão tinha compreendido mal? Ou, pior ainda, Deus tinha primeiro criado nele uma falsa esperança e depois o enganado? Os factos dizem isso e, como se costuma dizer, «contra factos não há argumentos»; a promessa não pode realizar-se. E eis que agora Deus parece piorar a situação: leva-o para fora e mostra-lhe o céu estrelado, continuando a prometer-lhe uma realidade inverosímil. Mas, no momento decisivo, em vez de se desencorajar ou de se fechar numa nova e amarga desilusão, Abraão dá o salto da fé: arrisca-se, acredita. Nessas duas palavras simples está toda a grandeza de Abraão: «Ele acreditou». Acreditou no inacreditável, considerou possível o impossível. Sabemo-lo: o nosso Deus é o Deus do impossível, porque «a Deus nada é impossível» (Lc 1,37). Precisamente quando tudo parece escuro, o nosso «Eu creio, Senhor» rasga as trevas.
SEGUNDA LEITURA
Da Epístola aos Hebreus (Heb 11,8.11-12.17-19)
Irmãos, pela fé, Abraão, chamado por Deus, obedeceu e partiu para um lugar que havia de receber como herança, e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, também Sara, apesar de já ter passado da idade, recebeu a possibilidade de ser mãe, porque considerou digno de fé Aquele que lho tinha prometido. Foi por isso que de um só homem, já marcado pela morte, nasceu uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia que se encontra à beira-mar e não se pode contar. Pela fé, Abraão, posto à prova, ofereceu Isaac, e precisamente ele, que tinha recebido as promessas, ofereceu o seu filho único, do qual fora dito: «Por meio de Isaac será chamada a tua descendência». Ele pensava, de facto, que Deus é capaz de ressuscitar os mortos; por isso, numa espécie de símbolo, voltou a recebê-lo. – Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
A vida de Abraão é um assalto à razão para o triunfo da fé. Deus pede-lhe tudo e ele, não sem luta, acredita em tudo. Este patriarca extraordinário e iniciador do povo de Israel nunca é exaltado na Bíblia pelas suas capacidades de organização, nem sequer pelas suas qualidades morais, mas sempre e somente pela sua fé, que é granítica, absoluta e heroica. É Deus quem fala? Se a resposta for «sim», então eu acredito e ajo. Não há mediação em Abraão: a sua fé é cega, vertical, imediata. E teve muitos filhos e uma numerosa descendência. Pensemos então na herança que deixaremos aos filhos e aos netos, no nosso testamento. Que lhes daremos? Uma casa, algum dinheiro que tenhamos guardado no banco? Alguns bens materiais? Todas essas coisas passam e se consomem com o tempo. Se, pelo contrário, lhes tivermos deixado a recordação da nossa fé, teremos dado como herança o bem mais precioso. Ainda hoje recordamos a fé de Abraão, e já passaram quase quatro mil anos. Uma bela herança, não vos parece? Durante quantos séculos será recordada a nossa fé?
EVANGELHO DO DIA
Evangelho segundo São Lucas (Lc 2,22-40)
Quando se cumpriram os dias da purificação ritual de Maria e José, segundo a Lei de Moisés, levaram o Menino [Gesù] a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor – conforme está escrito na Lei do Senhor: «Todo o primogénito varão será consagrado ao Senhor» – e para oferecerem em sacrifício um par de rolas ou duas pombinhas, como está prescrito na Lei do Senhor. Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão; era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo estava nele e tinha-lhe revelado que não morreria antes de ver o Messias do Senhor. Movido pelo Espírito, veio ao templo e, quando os pais trouxeram o Menino Jesus para cumprirem as prescrições da Lei no que lhe dizia respeito, Simeão recebeu-O nos braços e bendisse a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, segundo a vossa palavra, podeis deixar partir em paz o vosso servo, porque os meus olhos viram a vossa salvação, que pusestes ao alcance de todos os povos: luz para se revelar às nações e glória de Israel, vosso povo». O pai e a mãe do Menino Jesus estavam admirados com o que d’Ele se dizia. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: «Este Menino foi estabelecido para que muitos caiam ou se levantem em Israel e para ser sinal de contradição – e uma espada trespassará a tua alma – assim se revelarão os pensamentos de todos os corações». Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada e tinha vivido casada sete anos após o tempo de donzela. Ficou viúva e tinha oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações. Estando presente na mesma ocasião, começou também a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém. Depois de terem cumprido tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. Entretanto, o Menino crescia e fortalecia-Se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele. – Palavra da salvação.
Comentário ao Evangelho do dia
No trecho de hoje parecem dominar as figuras do velho Simeão, um desconhecido que, depois da profecia, regressa imediatamente à sombra, e de Ana, profetisa carismática; na realidade, é manifestada a função da Sagrada Família de Nazaré. São Maria e José que levam o Menino ao templo, são eles que o apresentam ao sacerdote, são eles que escutam, admirados, as palavras de Simeão, são eles que, no final, conduzem o Menino a Nazaré e O fazem crescer em paz, na serenidade da família, até aos seus trinta anos. Deus entrou no mundo, mas não como um herói solitário que faz tudo sozinho; vive desde o início numa família, que é assim imediatamente santificada pela sua presença. Jesus nunca está sem Maria e José. Também hoje sabemos bem que os méritos da redenção pertencem a Cristo, mas Ele parece agir sempre e referir-Se à sua família. Em Fátima, na aparição conclusiva, as três crianças veem no céu José, sentado com Jesus ao colo, e Maria Santíssima de pé junto dos dois. E é José quem abençoa a humanidade juntamente com o Menino Jesus. A bênção chega-nos da Sagrada Família reunida.


