Textos retirados do Missalinho “Sobre a Tua Palavra” março-abril de 2024
Tríduo pascal – Ressurreição do Senhor
própria
Missa do dia e vespertina
PRIMEIRA LEITURA
Dos Atos dos Apóstolos (At 10,34a.37-43)
Naqueles dias, Pedro tomou a palavra e disse: «Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo anunciado por João; isto é, como Deus consagrou no Espírito Santo e na força Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que estavam sob o poder do demónio, porque Deus estava com ele. E nós somos testemunhas de todas as coisas por ele realizadas na região dos Judeus e em Jerusalém. Eles mataram-no, suspendendo-o numa cruz, mas Deus ressuscitou-o ao terceiro dia e quis que se manifestasse, não a todo o povo, mas às testemunhas escolhidas por Deus, a nós que comemos e bebemos com ele depois da sua ressurreição dos mortos. E ordenou-nos que anunciássemos ao povo e testemunhássemos que ele é o juiz dos vivos e dos mortos, constituído por Deus. A ele todos os profetas dão este testemunho: quem acredita nele recebe, por meio do seu nome, o perdão dos pecados». – Palavra do Senhor.
Comentário à primeira leitura
O texto dos Atos dos Apóstolos relata a primeira pregação de Pedro diante dos pagãos. O romano Cornélio mandara chamá-lo, e Pedro expõe em poucas palavras o conteúdo do anúncio cristão: Jesus foi batizado no Jordão, percorreu as terras da Judeia e da Galileia fazendo o bem e expulsando os demónios, morreu na cruz por uma sentença injusta e o Pai ressuscitou-o. Portanto, Jesus está agora vivo, embora fora das dimensões terrenas do espaço e do tempo, e continua a agir entre as pessoas na sua função divina de retirar os pecados do coração dos homens. Portanto, os conteúdos são estes: Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, morreu por nós, mas agora está vivo; o seu reino não é deste mundo e entra-se nele desde já através da conversão e da vida da graça. Ainda hoje, após dois mil anos e depois de tantas reflexões dos santos e dos teólogos, a substância é sempre a mesma. Se se pregar algo diferente, trai-se a missão de Cristo e da Igreja. Jesus morreu por nós e agora está vivo para nos levar das trevas para a luz: é isto que os homens devem saber.
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo apóstolo aos Colossenses (Col 3,1-4)
Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus; dirigi o pensamento para as coisas do alto, não para as da terra. Vós, com efeito, morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus! Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, também vós aparecereis com Ele na glória. – Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
O cristão vive em dois planos: o terreno visível e o interior invisível. No primeiro, trabalhamos, vamos às compras, casamo-nos, temos filhos; no segundo, estamos na companhia de Jesus, dos santos e dos anjos, vivemos já a realidade divina e temos no coração nada menos do que o Espírito Santo. Estes dois planos coexistem sem se perturbar, pelo que podemos continuar tranquilamente a fazer as coisas “daqui de baixo”, mantendo o coração e a mente nas coisas “do alto”; podemos ser ministros de Estado ou prémios Nobel da física e, ao mesmo tempo, estar escondidos com Cristo. Aliás, a nossa vida consistirá cada vez mais na fusão destes dois mundos, até à nossa morte. O único buraco negro em que podemos cair é o pecado, que quebra esta unidade: então encontramo-nos apenas no mundo de baixo, que, contudo, definha e não se salva. Nesse caso, iremos imediatamente à Confissão. O anúncio pascal é a exortação jubilosa a erguer o olhar para o alto e a mergulhar plenamente na vida do Ressuscitado.
OU:
Da primeira carta de São Paulo apóstolo aos Coríntios (1Cor 5,6b-8)
Irmãos, não sabeis que um pouco de fermento faz fermentar toda a massa? Retirai o fermento velho, para serdes massa nova, pois sois ázimos. E, de facto, Cristo, nossa Páscoa, foi imolado! Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com fermento de malícia e perversidade, mas com ázimos de sinceridade e de verdade. – Palavra do Senhor.
Comentário à segunda leitura
Depois da ressurreição de Cristo, tudo muda. São Paulo dá o exemplo do fermento consumido, velho e disforme, que já não funciona. Na massa da nossa vida, colocamos agora o fermento novo, que não é outra coisa senão a vida do Senhor ressuscitado. Não temos de fazer nada, porque o Senhor faz tudo: encontrar-nos-emos então perfeitamente levedados num monte de massa macia e fresca. O fermento velho chama-se «maldade» e «perversidade», o novo «sinceridade» e «verdade». O interessante é que todos querem ser «sinceridade» e «verdade» em palavras, mas esquecem-se (ou fingem esquecer-se) de eliminar o fermento velho, pensando que, mesmo que reste um pouco, não causa mal. Não: deixemos agir a “dona de casa” do Céu, cujas mãos diligentes trabalham a massa. São as mãos do Espírito Santo, que continuamente trabalham em nós através dos ensinamentos, do sacrifício, da ascese, da obediência, da doutrina e dos atos de caridade. O que nos é necessário é a docilidade, deixar agir e admirar no fim o esplendor da obra divina em nós.
SEQUÊNCIA
À vítima pascal,
se eleve hoje o sacrifício de louvor.
O Cordeiro redimiu o seu rebanho,
o Inocente reconciliou
a nós, pecadores, com o Pai.
A Morte e a Vida enfrentaram-se
num duelo prodigioso.
O Senhor da vida estava morto;
mas agora, vivo, triunfa.
«Diz-nos, Maria:
que viste pelo caminho?».
«O túmulo do Cristo vivo,
a glória do Cristo ressuscitado,
e os seus anjos como testemunhas,
o sudário e as suas vestes.
Cristo, minha esperança, ressuscitou:
e vai à frente dos seus para a Galileia».
Sim, temos a certeza:
Cristo ressuscitou verdadeiramente.
Vós, Rei vitorioso,
tende piedade de nós.
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São João (Jo 20,1-9)
No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de manhã, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram!». Pedro saiu então com o outro discípulo e foram ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se, viu os panos ali colocados, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguia, entrou no sepulcro e observou os panos ali colocados, e o sudário – que tinha estado sobre a sua cabeça – não colocado ali com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Entrou então também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao sepulcro, viu e acreditou. Com efeito, ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual Ele devia ressuscitar dos mortos. – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
O primeiro sinal que deixa os discípulos admirados é o sepulcro vazio. Jesus tinha dito várias vezes que ressuscitaria dos mortos, precisamente ao terceiro dia, mas eles não compreendiam, não queriam compreender. Amavam muito o seu Mestre e não conseguiam aceitar que Ele tivesse de morrer daquela maneira atroz; além disso, não conseguiam entender o que aconteceria depois. Ressuscitar dos mortos... para fazer o quê? Para viver como? Tudo estava envolto em mistério, mas havia também dureza de coração. Tinham as suas próprias ideias sobre o que o Messias deveria fazer e continuavam a pensar segundo os seus esquemas. O sepulcro vazio é, portanto, o primeiro sinal desta desorientação interior dos discípulos. Jesus tinha razão: o seu corpo não devia conhecer a corrupção da carne, mas onde teria ido parar? Antes de aparecer ressuscitado, Jesus desaparece do sepulcro. Antes de O acolher na sua ressurreição, é preciso esvaziar a mente de outras ideias. É preciso acolher Deus tal como Se apresenta, e não como nós gostaríamos que Se apresentasse. Contemplar o sepulcro vazio faz-nos bem. É a morte do nosso eu. Também nós, naquele sepulcro, renunciamos a nós próprios, para acolher o Ressuscitado tal como Ele verdadeiramente é.
Em vez deste Evangelho, pode utilizar-se o proclamado na Vigília Pascal
Do Evangelho segundo Marcos (Mc 16,1-7)
Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ir ungir o corpo de Jesus. De manhã cedo, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro ao nascer do sol. Diziam entre si: «Quem nos irá revolver a pedra da entrada do sepulcro?». Mas, olhando, viram que a pedra já tinha sido revolvida; e era muito grande. Entraram no sepulcro e viram um jovem sentado do lado direito, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. Mas ele disse-lhes: «Não tenhais medo! Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde O tinham deposto. Agora ide dizer aos seus discípulos e a Pedro: “Ele vai à vossa frente para a Galileia. Lá O vereis, como vos disse”». - Palavra do Senhor.
Onde se celebra a Missa vespertina, pode proclamar-se o seguinte Evangelho:
Do Evangelho segundo Lucas (Lc 24,13-35)
E eis que, nesse mesmo dia, [o primeiro da semana,] dois [dos discípulos] iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, a cerca de onze quilómetros de Jerusalém, e conversavam entre si sobre tudo o que tinha acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus aproximou-se e caminhava com eles. Mas os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer. E ele disse-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?». Eles pararam, com o rosto triste; um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: «Só tu és forasteiro em Jerusalém! Não sabes o que lá aconteceu nestes dias?». Perguntou-lhes: «O quê?». Responderam-lhe: «O que diz respeito a Jesus de Nazaré, que foi um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; como os sumos sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de libertar Israel; mas, além de tudo isto, já lá vão três dias desde que estas coisas aconteceram. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados; foram de manhã cedo ao sepulcro e, não tendo encontrado o seu corpo, vieram dizer-nos que tinham tido uma visão de anjos, que afirmam que ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito, mas a ele não o viram». Disse-lhes: «Como sois insensatos e lentos de coração para acreditar em tudo o que os profetas disseram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?». E, começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que lhe dizia respeito. Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, ele fez menção de continuar para diante. Mas eles insistiram: «Fica connosco, pois a noite está a cair e o dia já está no ocaso». E entrou para ficar com eles. E, quando se pôs à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e entregou-lho. Nesse momento, abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no. Mas ele desapareceu da sua vista. Disseram então um ao outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Partiram imediatamente e regressaram a Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão!». E eles contaram o que tinha acontecido pelo caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão. – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
Os discípulos caminham tristes e desiludidos porque esperavam que Jesus libertasse Israel, mas Ele não o tinha feito. Também nós nos queixamos muitas vezes das coisas que não correm bem, daquilo que perdemos ao longo dos anos e até do facto de Deus não ter intervindo como teríamos desejado. Jesus torna-se presente e aquece o coração dos dois, abrindo-lhes a mente para compreenderem as Escrituras. É precisamente isso que faz todos os dias: fala-nos continuamente através da Escritura, do Magistério, da Igreja, das circunstâncias, da criação e da voz do coração. Jesus aceita o convite. Se o convidarmos, entra em nossa casa e senta-se connosco. Jesus ama-nos e oferece-nos o seu Corpo e o seu Sangue. Não se limita a instruir-nos, mas quer viver a nossa vida, porque o amor tende para a união. Assim, é precisamente na Eucaristia que O reconhecemos plenamente. Os discípulos levantam-se da mesa e correm imediatamente para Jerusalém para dizer que O viram. Poderiam ter ido no dia seguinte com calma, mas não resistem. Quem viu Jesus deseja comunicá-lo, dá-lo a conhecer. A viagem de regresso está cheia de alegria. Emaús é, assim, o sinal e o símbolo da vida cristã.


