Textos extraídos do Messalino “Sobre a Tua Palavra” janeiro-fevereiro de 2022
Batismo do Senhor (f) (C)
própria
PRIMEIRA LEITURA
Do livro do profeta Isaías (Is 40,1-5.9-11)
«Consolai, consolai o meu povo – diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém e gritai-lhe que terminou a sua tribulação e foi expiada a sua culpa, porque recebeu da mão do Senhor o dobro por todos os seus pecados». Uma voz clama: «No deserto preparai o caminho do Senhor, aplanai na estepe a estrada para o nosso Deus. Todo o vale seja elevado, todas as montanhas e colinas sejam rebaixadas; o terreno acidentado transforme-se em planície e o escarpado em vale. Então manifestar-se-á a glória do Senhor e todos os homens juntos a verão, porque a boca do Senhor falou». Sobe a um monte alto, tu que anuncias boas-novas a Sião! Eleva com força a tua voz, tu que anuncias boas-novas a Jerusalém. Eleva a voz, não temas; anuncia às cidades de Judá: «Eis o vosso Deus! Eis que o Senhor Deus vem com poder, o seu braço exerce o domínio. Eis que traz consigo a recompensa e a sua retribuição vai à sua frente. Como um pastor, apascenta o rebanho e com o seu braço o reúne; leva os cordeirinhos ao colo e conduz com ternura as ovelhas mães». – Palavra de Deus.
Comentário à primeira leitura
Finalmente, terminou o tempo do castigo (o exílio na Babilónia) e pode-se regressar a casa. É uma espécie de novo Êxodo, desta vez mais alegre, tanto que também a criação participa nele para tornar o caminho mais fácil: os vales elevam-se, as colinas rebaixam-se, os desfiladeiros suavizam-se. Quando o homem arrependido regressa a Deus, tudo canta. Daí a ordem que Deus dá ao profeta: «Vai consolar o meu povo com esta boa notícia!». E quanta necessidade tem hoje o mundo de ser consolado! Tantas escravidões, inúmeras dores. Mas a consolação não consiste em prometer bens terrenos, prémios materiais, aumento do bem-estar. Consiste sempre em saber-se perdoado por Deus, depois de lhe ter pedido perdão. Quando o escritor russo Dostoiévski foi levado diante do pelotão de execução e, poucos instantes antes do fuzilamento, a pena foi suspensa por causas imprevistas, um dos condenados enlouqueceu e a outro ficaram todos os cabelos brancos. «Esta é uma alegria grande demais para um homem», comentou o escritor. Isto, e muito mais, acontece quando se passa do pecado à graça.
SEGUNDA LEITURA
Da carta de São Paulo apóstolo a Tito (Tt 2,11-14;3,4-7)
Meu filho, manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação a todos os homens e nos ensina a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos e a viver neste mundo com temperança, justiça e piedade, aguardando a bem-aventurada esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele entregou-Se por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e formar para Si um povo purificado, que Lhe pertença, zeloso pelas boas obras. Mas quando se manifestaram a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens, Ele salvou-nos, não por causa das obras justas que tivéssemos praticado, mas pela sua misericórdia, mediante uma água que regenera e renova no Espírito Santo, que Deus derramou abundantemente sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, nos tornássemos, na esperança, herdeiros da vida eterna. – Palavra de Deus.
Comentário à segunda leitura
Paulo escreve uma carta ao amado discípulo Tito, que deixou como jovem bispo na ilha de Creta. O Apóstolo dá-lhe muitos bons conselhos e orientações porque, como se pode presumir, ainda não existia ali uma Igreja bem organizada e estruturada. Entre os vários conselhos práticos, surge de repente esta pérola doutrinal que hoje lemos e que explica tudo. Por que devemos comportar-nos segundo o Evangelho? Porque Cristo Se entregou por nós. As boas ações são sempre consequência do encontro com Jesus ressuscitado, que vive nos nossos corações. E vive nos nossos corações porque nos deu o Espírito Santo: fomos batizados. A santidade precede, portanto, toda a ação, funda-a e sustenta-a. Há santos que não fizeram nada, mas converteram milhares de pessoas apenas com a sua presença. Um exemplo? São Francisco de Assis: não era sacerdote, não fundou nenhum abrigo assistencial, não deu dinheiro a ninguém, porque também não o tinha. Simplesmente, deu Deus às almas, porque Deus vivia nele e isso via-se. Poderíamos dizer: porque era batizado. E isso via-se.
EVANGELHO DO DIA
Do Evangelho segundo São Lucas (Lc 3,15-16.21-22)
Naquele tempo, como o povo estava na expectativa e todos se perguntavam no íntimo, a respeito de João, se ele não seria o Messias, João respondeu a todos, dizendo: «Eu batizo-vos com água; mas vai chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo». Entretanto, todo o povo recebia o batismo e Jesus, depois de também ter sido batizado, estava em oração. Então o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba, e fez-se ouvir uma voz do céu: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência». – Palavra do Senhor.
Comentário ao Evangelho do dia
O batismo do Senhor Jesus é um dos poucos episódios relatados pelos quatro evangelistas. Nem sequer a instituição da Eucaristia na última Ceia é narrada pelos quatro, mas apenas por três. O batismo deve ser realmente importante, se merece tal atenção. É o grande acontecimento trinitário que inaugura a vida pública: o Pai enche de amor o Filho, o Espírito Santo envolve-O, o Filho entra na água para dar o grande sinal da sua missão: tornar-Se solidário com os pecadores e pagar por eles o preço do resgate. Reparemos nas palavras do Pai: são expressões de amor. Também Jesus tem, de algum modo, “necessidade” delas para enfrentar a terrível prova que está prestes a iniciar: três anos de fadigas, pregações, conflitos, de contacto contínuo com o povo, até ao sacrifício da cruz. O amor do Pai enche o coração, dá confiança e força, ajuda a superar tantas dificuldades e tristezas, faz voar. Pois bem, isto também é verdade para nós, porque, se estamos em Cristo, essas palavras permanecem também em nós. «O próprio Pai vos ama!» dirá mais tarde Jesus. Assim, o acontecimento do batismo é a grande manifestação do amor de Deus; eis por que é tão importante.

