D. Rino Fisichella, retomando a leitura da Dei Verbum, aborda a questão da Tradição, um dos temas mais importantes para compreender o presente.
Ser herdeiro de um património como a Tradição nada tem que ver com o recurso a fórmulas perdidas. Compreender-se como herdeiro do passado, pelo contrário, implica a consciência de uma relação que cria continuidade com a história.

A Tradição permite compreender o presente
Falar hoje de tradição significa ser rapidamente rotulado como tradicionalista, porque parece ser algo que pertence apenas ao passado. Mas a tradição é uma condição de vida sem a qual não se compreende o presente nem se constrói o futuro.
Na era da Internet, tudo isto se torna ainda mais evidente. A cultura do imediato, do “agora e já”, está a englobar rapidamente as categorias tradicionais do espaço e do tempo para as inserir num contexto desprovido de referências.
E, contudo, é precisamente num quadro semelhante que emerge ainda mais a exigência de critérios que ajudem a conservar aquilo que é digno e a transmitir o que foi recebido.
É neste desenvolvimento que entra com força a necessidade da tradição. Com efeito, os povos comunicam entre si e a história de um é dada a conhecer a outro, criando uma espécie de complementaridade.
A tradição indica diversas experiências humanas que são necessárias porque formam um património de que a humanidade precisa para viver e se orientar.

A Igreja tem a sua própria Tradição
Em muitos aspetos, poder-se-ia dizer que tudo quanto os cristãos possuem pertence à Tradição e foi transmitido pela Tradição. Uma transmissão, antes de mais, oral, que permitiu a formação dos livros sagrados e de muitas outras práticas que perduram até hoje como sinais fundadores da fé.
Um dos elementos fundamentais de que esta fé vive é a sua transmissão, que, de geração em geração, marca a história cristã. A referência à tradição, de facto, não é uma mera recordação do passado; constitui antes o reconhecimento de um património cultural que pertence a toda a humanidade.
A Tradição implica, em primeiro lugar, a transmissão da revelação que encontra o seu cumprimento na pessoa de Jesus. Esta é a vontade de Deus que, através desta transmissão viva, continua a operar a salvação da humanidade.
Ao transmitir o Evangelho de Cristo, a Igreja torna evidente que a sua revelação permanece e continua no mundo como verdadeiro instrumento de salvação.
Certamente, a Igreja não acrescenta nada ao que os Apóstolos transmitiram e, contudo, a sua obra de transmissão fiel implica uma compreensão sempre nova e fecunda do único mistério revelado.


